Ser Amigo de um Disléxico, como é?

Tempo de leitura: 2 minutos

Pelos olhos de um Disléxico a imagem demora a ser processada, e quando chega pode ser um borrão, misturado com uma fala demorada – que gera impaciência em muitos-, e com um pensamento único que se alinha a um olhar para o nada. Um nada que para muitos é um vazio, mas que para mim, amigo de Lucas Ferreira de Queiroz, Disléxico, sempre foi um olhar de contemplação. Mas como nem tudo são flores (risos) é um desafio à convivência.

Quando o conheci, na faculdade, cursávamos Jornalismo. A primeira vista, jamais diria que ele é Disléxico, porque fala muito bem e tem uma inteligência diferenciada. Tão diferente que eu, em muitos momentos, corrigindo seus textos, me irritava e pensava: “Que saco esse menino com esses erros verbais! Como será um jornalista?”. No entanto, com o tempo, e minhas cobranças excessivas, parei e refleti sobre o porquê os erros eram sempre os mesmos. Mas ele nunca disse nada acerca do diagnóstico.

Então, sem saber nada, continuei achando que até uma árvore saberia escrever melhor que Lucas. Contudo, não pude negar sua absurda competência e visão jornalística para com todos os aspectos que permeiam a vida humana.

Foi então que consegui levar o barco sem tanto desespero, permitindo com que ele remasse em meio aos erros gramaticais graves e não tão graves. Passei a não ser um chato, porque ninguém engoliu o Aurélio para se achar o máximo. Desta forma, a faculdade seguiu, os textos seguiram, a vida seguiu.

Num certo dia, despretensiosamente, ao me ligar, Lucas contou sobre a Dislexia e as tantas dificuldades que encontrou na infância, adolescência e fase adulta. Fiquei muito sensibilizado com seu relato e desde aquele dia, quando coloquei o telefone no gancho, eu soube que ele é um dos melhores profissionais que já conheci.

Contudo, há momentos que não são tão simples, como ter que beliscá-lo ou chutá-lo para que não expresse sua opinião “diferenciada”, simplesmente porque não é o momento para isso. Ou ter que sempre olhar seus textos quando você nem mesmo está afim dos seus. Assim como ter que entender que sua necessidade de falar é grande, e que é necessário ter ouvidos bondosos e coração amoroso, mesmo quando você quer ler um livro e seu amigo não para de falar. Ou quando, por falta de atenção, seu amigo não olha o copo e coloca água para você beber junto com resto de detergente. Sim, eu tenho um estomago de aço. (risos)

Ter a amizade de um Disléxico é ver as coisas de maneira diferente. É ver a carência. É ver a humildade. É ver a força de vontade. É ver a bondade. É ver uma criança no corpo de adulto. É ver um ser humano que por mais diferente que seja, jamais se recusa a ser a vitima. Uma amizade assim nos faz ser pacientes, tolerantes, compreensivos, não sem antes exigir um chocolate ou um amendoim doce. (risos)

Lucas, eu gosto de você, mas amo a sua Dislexia.

3 Comentários


  1. Meu filho é dislexo
    Sofremos muito e ainda sofre pelas dificuldades aparentadas, mas com essas informações nos dão ânimo pra continuar a caminhada.
    Muito obrigada por seu relato…

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  2. Lindo esse relato!!!
    Através dessas palavras conseguimos enxergar no final do caminho que existe o AMOR. Com lágrimas nos olhos e alegria na alma…digo: A luta é árdua, mas…a vitória é certa.
    Abraços.

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